B.
As coisas vão bem por aqui. Consegui finalmente arranjar os livros nas prateleiras, meu cabelo obedeceu ao trabalho paciente dos grampos essa manhã e desencaixotei alguns álbuns antigos, que me proporcionaram uma tarde de espirros e recordações. O número de fotos diminuiu consideravelmente com a passagem dos anos e já há muito não se vê retratos meus. Os últimos são daquela viagem a Porto, quando lhe escrevi, contando que realizava enfim um sonho de moça. Deve se lembrar, pois fui muitíssimo indiscreta. Meu pequeno bilhete embriagado, que mesmo pretensamente disfarçado nas palavras se denunciava no vestígio rubro sobre o papel. Achei que gostaria daquela gota de vinho, afinal era o que poderia lhe enviar. Das palavras não sei se gostou.
Penso que isso não é importante agora. Seu gostar e desgostar sempre foram o meu gostar e desgostar, um pedaço de mim mesma revelado em sonho ou tormenta. No fim, sabe que lhe deixei todas as certezas. Hoje lhe deixo cartas.
A propósito, havia uma foto sua. Seus vinte anos sorriam tudo o que era. E você em sua beleza tão pouco óbvia, pareceu-me eterno. Todo o restante estranhamente perece. Cada vez mais depressa.
Encerro aqui. Há ainda muito o que pensar, ordenar e cumprir. A chaleira apita sobre o fogão. Tem feito frio por esses lados e agora anoitece. Sempre anoitece.
Com amor
L.