E foi então que a colecionadora de livros conheceu o compositor de valsinhas. Encontraram-se em meio aos pares bêbados que dançavam seus medos e desejos em praça pública, na hora que antecedia o recomeço do mundo. Com as mãos entrelaçadas e sem cerimônias seguiram pelas ruas de pedras frouxas que guardavam o sono dos retirantes urbanos e os sussurros roucos dos corpos nus que povoavam os muros. Falaram de amenidades e tragédias, dos poetas notívagos e dos mortos no cais. Contaram sobre os dias de secura, sobre as luas carmins e mostraram os instantâneos que traziam nas carteiras. E ela ria. Não, não conhecia valsinhas nem a Europa, assim como ele também não havia lido Gabriel, uma falha de caráter imperdoável, não fosse o sorriso torto que ele ofereceu como justificativa. Com ares de importância, o rapaz cantarolou sua última composição, ainda descomposta em um ou outro trecho. Desajeitada, a colecionadora procurou acompanhar a letrinha sofrível e ele disse com um gracejo que ela desafinava lindo, lindo.
E depois de um tempo, perceberam espantados que não importava que as palavras deixassem de ser e deram lugar ao silêncio que virou beijo. E ali mesmo, nas ruas de pedras frouxas, amaram-se muito e de todas as maneiras que a imaginação e a anatomia lhes permitiram. Atormentados com tanto amor, os pássaros das gaiolas escaparam em revoada rumo ao céu, mas por não se distinguir mais este do mar, na negritude que se encontrava o mundo, jogaram-se, suicidas, nas águas, que passaram a cantar desde então. Ao fim, ela, colecionadora de valsinhas, e ele, compositor de livros, sorriram.
Porém, no segundo de lucidez que se segue ao êxtase e precede o desespero, ela soube que ao virarem a próxima esquina o rapaz soltaria sua mão. Antes, claro, ele lhe tocaria a ponta dos dedos com os lábios e diria qualquer coisinha sobre a cor de seus olhos. E seguiria, compondo e cantarolando novas valsinhas para tantas outras colecionadoras. Comovida com sua própria sorte, fechou os olhos e se deixou ficar ali, apenas ouvindo a voz que ao seu lado cantava: “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa. São bonitas as canções”.