terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Colecionadora de Livros - ou sobre a crueldade do amor

E foi então que a colecionadora de livros conheceu o compositor de valsinhas. Encontraram-se em meio aos pares bêbados que dançavam seus medos e desejos em praça pública, na hora que antecedia o recomeço do mundo. Com as mãos entrelaçadas e sem cerimônias seguiram pelas ruas de pedras frouxas que guardavam o sono dos retirantes urbanos e os sussurros roucos dos corpos nus que povoavam os muros. Falaram de amenidades e tragédias, dos poetas notívagos e dos mortos no cais. Contaram sobre os dias de secura, sobre as luas carmins e mostraram os instantâneos que traziam nas carteiras. E ela ria. Não, não conhecia valsinhas nem a Europa, assim como ele também não havia lido Gabriel, uma falha de caráter imperdoável, não fosse o sorriso torto que ele ofereceu como justificativa. Com ares de importância, o rapaz cantarolou sua última composição, ainda descomposta em um ou outro trecho. Desajeitada, a colecionadora procurou acompanhar a letrinha sofrível e ele disse com um gracejo que ela desafinava lindo, lindo.

E depois de um tempo, perceberam espantados que não importava que as palavras deixassem de ser e deram lugar ao silêncio que virou beijo. E ali mesmo, nas ruas de pedras frouxas, amaram-se muito e de todas as maneiras que a imaginação e a anatomia lhes permitiram. Atormentados com tanto amor, os pássaros das gaiolas escaparam em revoada rumo ao céu, mas por não se distinguir mais este do mar, na negritude que se encontrava o mundo, jogaram-se, suicidas, nas águas, que passaram a cantar desde então. Ao fim, ela, colecionadora de valsinhas, e ele, compositor de livros, sorriram.

Porém, no segundo de lucidez que se segue ao êxtase e precede o desespero, ela soube que ao virarem a próxima esquina o rapaz soltaria sua mão. Antes, claro, ele lhe tocaria a ponta dos dedos com os lábios e diria qualquer coisinha sobre a cor de seus olhos. E seguiria, compondo e cantarolando novas valsinhas para tantas outras colecionadoras. Comovida com sua própria sorte, fechou os olhos e se deixou ficar ali, apenas ouvindo a voz que ao seu lado cantava: “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa. São bonitas as canções”.

sábado, 10 de outubro de 2009

Querido menino


Ontem você quis saber como eu estava. Logo para mim, querido menino, que não sei mentir. E você então me perguntou como eu transformava dor em palavras. Palavras certas. E naquela hora eu quis te dizer que as palavras que escrevo são certas só para mim. Não são certas para Teresa, nunca abarcariam sua tristeza infinita com gosto de mar, nem teriam encaixe perfeito na cova aberta que ficou em Heloísa quando sua menina decidiu ser pássaro sem asas. Minhas palavras têm seios e são negligentes com os meninos crescidos. Para eles dediquei nada mais que entrelinhas. Eu escrevo apenas para mim. Palavras, antes que certas, egoístas. Palavras que não transformam a dor, querido menino, apenas me salvam dela por alguns segundos.

E eu também quis te fazer muitas perguntas. Quis saber dos finais de semana, se você tem se alimentado melhor e se o Lorenzo tem fingido ser Johnny Cash quando o sono não vem e o medo do escuro brinca de fazer cócegas em você. E, mais do que tudo, queria saber se você é feliz agora.

Mas seus passos são mais largos que os meus, querido menino. E te levaram para um lugar onde minhas perguntas, cartas e orações são incapazes chegar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ela falou em perda e tudo que pude oferecer foram duas lágrimas sentidas e meus olhos vermelhos. Desculpe, eu não queria chorar. É que às vezes a minha dor, a dor do outro e a dor do mundo se misturam, se lambem e acasalam. Dão cria. E essa cria corre louca, roendo móveis, chinelos velhos e as esperanças da gente.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Baixou os olhos e enfileirou em sua mente uma seqüência numérica qualquer que abafasse o ruído que fazia ali dentro. A essa altura sua respiração agitara-se e o peito em seu ir e vir entregava aquilo que a face trabalhava em esconder. As mãos geladas fecharam-se tensas, cravando nas palmas as unhas descascadas. Foi então que, dali onde vigiava o mundo, viu passar o par de tênis pretos. Teve a impressão de que o pé esquerdo em algum momento se atrasara em seu trajeto para o chão, mas seja pela arrogância do direito, seja pelo engano de seus olhos, ele logo se recompôs e retornou às passadas largas e decididas que levaram seu dono para longe dela. Pode enfim afrouxar as mãos. Uma ferida formada na palma ficaria como lembrança por alguns dias. O peito agitado tornou-se então imóvel e os números passaram a furar a fila, enfurecidos, acusando-se e produzindo um barulho digno de denúncia se escapasse de seu crânio. Demorou alguns segundos para que tudo se aquietasse e ela fosse inundada pela dor que já era inquilina inadimplente de algum desvão em seu corpo.

Em seu propósito de ignorar diariamente a passagem do dono dos pés, acostumara-se aos poucos com aquela seqüência de reações, mas a depressão que lhe tomava ao fim ainda causava surpresa e um bocado de decepção. Egocentricamente, achara que se não olhasse tornaria-se invisível ao dono dos pés, o que realmente aconteceu após algumas semanas de ensaio, mas para ela os pés continuavam ali, pesados, arrastando consigo memórias e um pouco de lama seca. A marca de seu próprio calçado no emborrachado do tênis esquerdo já não estava mais ali, agora um novo pé pisotearia de leve (o direito) durante uma dança ou beijo qualquer.
Era fim de tarde e uma pena caída deu seu vôo rasteiro anunciando sorte.

Esse vai ter uma segunda chance...Ele pereceu na primeira pela falta de originalidade das expressões, mas elas continuam aí, caducas e repetitivas...



Ela olhou para as próprias mãos, observando os sulcos que se formavam. Lembrou daquele dia. Virou-se, olhou o movimento que cobria a plataforma – mulheres gordas carregando suas sacolas e bebês de colo, trabalhadores dos primeiros turnos, uma garota e sua meia preta rasgada pelos sacrifícios da noite. Atrás, alguém comentava em tom monocórdio os fatos trágicos de um jornal de bairro. Eram vozes, pernas e bocejos demais. O ar gelado que percorria os trilhos penetrava suas narinas, eriçava os pêlos em sua nuca. Apertou o casaco contra o corpo e sentiu falta do café ralo de D. Alice. O relógio encardido, pendurado sobre a plataforma, marcava qualquer hora errada. Pôs a mão no bolso, retirando o pedaço de papel velho riscado às pressas. Talvez aquele endereço não existisse mais, talvez ele não existisse mais. Dobrou.

Ao longe, um apito gerou movimentos ansiosos naquela gente medíocre. Inclinou-se lentamente, erguendo a maleta surrada cheia de objetos de outro tempo. O vestido vermelho daquele dia. Os vagões pichados logo se acomodaram, soltando um suspiro cansado. Caminhou na mesma direção que os demais, embarcou.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Por algum motivo desconhecido, em todos os anos de sua vida, aquele mês sempre significara mudanças. A pele corava e os olhos, até então desbotados, ganhavam as cores dos paus de canela e brilhavam maliciosamente diante dos vidros da cidade. Os seios enrijeciam e dos lábios brotava apenas o lá maior. Andava a passos ágeis, brincando de contar as pedras sob seus pés. Nestes, a mesma vida jorrava: havia esmalte.

Aquele era o mês da chegada dos novos amores. Sentia o ventre cheio.

Naquele dia, porém, desrespeitosamente contrariando a profecia de sua vida, sentiu apenas a falta. Sozinha em seu quarto, uma por uma as peças de roupa escorregaram até seus pés. No espelho, viu apenas o reflexo silencioso de seus contornos sutis. Havia olheiras, passagens mal desenhadas e sardas demais para serem lembradas. Deslizou a mão pelo pescoço e pensou naquela noite, nos sons roucos e nele. O que dissera aquele olhar?

Acariciou a porção de pele em torno de seu umbigo. Um único som oco.

Deitou-se e as voltas da coberta e de seu corpo entrelaçaram-se. Sabia da fugacidade de sua melancolia, afinal aquele mês ainda não acabara. Acalmava-lhe a certeza de que alguns dias a protegiam do retorno à insipidez. Mas apenas por hoje poderia se sentir só. A gosto.