quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Carta a alguém


B.


As coisas vão bem por aqui. Consegui finalmente arranjar os livros nas prateleiras, meu cabelo obedeceu ao trabalho paciente dos grampos essa manhã e desencaixotei alguns álbuns antigos, que me proporcionaram uma tarde de espirros e recordações. O número de fotos diminuiu consideravelmente com a passagem dos anos e já há muito não se vê retratos meus. Os últimos são daquela viagem a Porto, quando lhe escrevi, contando que realizava enfim um sonho de moça. Deve se lembrar, pois fui muitíssimo indiscreta. Meu pequeno bilhete embriagado, que mesmo pretensamente disfarçado nas palavras se denunciava no vestígio rubro sobre o papel. Achei que gostaria daquela gota de vinho, afinal era o que poderia lhe enviar. Das palavras não sei se gostou.

Penso que isso não é importante agora. Seu gostar e desgostar sempre foram o meu gostar e desgostar, um pedaço de mim mesma revelado em sonho ou tormenta. No fim, sabe que lhe deixei todas as certezas. Hoje lhe deixo cartas.

A propósito, havia uma foto sua. Seus vinte anos sorriam tudo o que era. E você em sua beleza tão pouco óbvia, pareceu-me eterno. Todo o restante estranhamente perece. Cada vez mais depressa.

Encerro aqui. Há ainda muito o que pensar, ordenar e cumprir. A chaleira apita sobre o fogão. Tem feito frio por esses lados e agora anoitece. Sempre anoitece.

Com amor

L.

sábado, 11 de setembro de 2010

(Teresinha ² + 2)


O primeiro lhe chegou em 1993. Foi surpreendido por ela com um pedido de namoro em troca do empréstimo de um lápis. Assustado, disse não.


O segundo confessou que lhe gostava em meio a um ensaio de quadrilha, ao que recebeu um sorriso com alguma provável janelinha e um “eu também”. Dias depois soube que ele se mudaria para algum lugar do qual nunca ouvira falar e que parecia muito distante do perímetro alcançado por seus oito anos. Não se chora por isso nessa idade. Brinca-se de Lego e se desenha uma princesa de longas tranças. Nos meses seguintes, não havia ele. Por muito tempo esperou revê-lo, pois, sabe-se, não são raros estes encontros sem aviso. Hoje já não se lembra de um de seus sobrenomes e se pergunta como ele está.

Anos depois, o terceiro. Este recebeu um bocado de pontapés na canela antes que ela encontrasse maneira melhor de demonstrar amor. Foi quando lhe escreveu uma carta, colocada às escondidas em sua mochila. No dia seguinte, em troca, ela ganhou um (primeiro) beijo, a permanente memória olfativa para tangerinas e um pedido de namoro. Tinha nome de anjo e aparelhos nos dentes.

O quarto arrancava suspiros concomitantes ou subseqüentes de toda mocinha que pisasse em seu caminho. Não se prestava, no entanto, a dar atenção a nenhuma delas, ainda preferindo videogames e futebol.

Logo em seguida, o quinto. Gostava de rodeios, mulheres à venda após a aula e qualquer substância alucinógena que a oportunidade apresentasse. Já ela, gostava dele. O namoro entre os dois foi breve, a história nem tanto. Dividido entre duas cidades e entre duas saias as quais enganar significou um certo trabalho. Anos mais tarde, ela teve noticias de algumas prisões. Motivo desconhecido.

Gostou do sexto assim que o viu. Cabelo alourado, sorriso largo e uma namorada com nome incomum. O único judeu. Negligente com os estudos, dava a ela a alegria de ensinar-lhe física e química às vésperas de prova. Nos demais dias, era facilmente ignorada. Nunca deixou que ele soubesse.

Amou o sétimo. Foi amada por ele. Paixão exagerada, desejos demasiados, tudo era muito. Porém, como alguns acontecimentos sem razão clara, um dia o amor de ambos se transformou em telefonemas rotineiros e ofensas mútuas. Silêncio e solidão deram lugar ao oitavo.

Este era doce. Discretamente encostavam suas mãos sob a mesa. À noite, ela lia os versos que ele compunha com facilidade despretensiosa. Pactuavam um sentimento que sabiam irrealizável. Um dia ela quase lhe roubou um beijo. Nos milímetros que separaram as bocas, ficou a certeza de que para serem vividas, algumas histórias não precisam ser concretizadas.

O nono era dado a discussões filosóficas e críticas musicais. Ensinou-lhe teorias políticas e aprendeu com ela um pouco do amor. Fazia-lhe rir, tinha péssimo gosto para filmes e era um ótimo parceiro de diálogos intermináveis. Até que se esvaiu. Ela ainda tenta descobrir o que ficou.

Quanto ao décimo, não se sabe o que sentiu. Porém, se paixão pode ser medida por lágrimas e consumo de álcool, sim, de certa forma o quis. Foi seu amor noturno. Amor de corpo. Se havia algum coração no rapaz, este se encontrava decerto do outro lado do Atlântico. Depois dele, restaram as rodas de samba.

Chegamos ao décimo primeiro. Pergunta-se para onde olhava que não o viu. Está agora a ponto de transbordar, de dizer-lhe óbvio. No súbito encantamento de se notar ao lado dele, esquece do que se fala, perdida nos movimentos de sua boca. Quer tocá-lo, mas sua mão retrocede a cada tentativa. Ele a observa do alto. É lindo e não a quer.

Inveja daquela que encerrou sua história após o terceiro cavalheiro.









terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Samba. E choro.

Chora a moça de branco alheia ao samba. Chora um choro guardado, repentinamente emerso diante dos que bebem e riem um fim de domingo. Choro tornado público aos que cantam às custas das manhãs seguintes; às custas de tantas moças de branco.
Mágoa liquefeita que transforma em drama esse momento. Mágoa desfeita na garrafa que lhe escapa da mão. Cerveja no chão e mais nem uma lágrima. Ao fundo, Noel.

domingo, 29 de novembro de 2009

Já é noite, meu bem

Já é noite, meu bem. Eu preciso ir. As horas correram e nos trouxeram até aqui. Há silêncio e blefes jogados no escuro. Escuta-os como verdade. Mas eu nunca te disse a verdade. Nem sei das suas feições à luz do dia. E talvez você não exista sob o sol. Sei apenas dos seus contornos marcados por suor e sombra, lindos.

Dorme como se o mundo não fosse uma sobreposição de enganos, medo e dor. Como se as moças esquálidas dos cortiços da cidade não sonhassem sonhos mortos, sentadas à beira de portas sem batentes. Dorme, porque no seu mundo não há nenhum perigo. E eu olho pra você – agora que é noite – sabendo que o meu único perigo estava bem aqui, transfigurado em menino.

As noites trouxeram você até mim em pequenas estrofes datadas de um tempo em que o amor doía menos. Mas seu mundo é composto em um ritmo obviamente distinto do meu. Não me chame pra dançar. Apenas entenda que se fui oca e sem palavras é porque havia verdades demais sob a pele que te tocava. E se me comovo facilmente é porque já é noite, meu bem.

sábado, 14 de novembro de 2009

[...]

Depois de muitos ensaios e frases inacabadas decidiu que naquela noite nada escreveria. Mesmo que as palavras continuassem a vir em ânsias, atrevidas e irresponsáveis, e as pontas de seus dedos se movessem à procura de teclas imaginárias. Não se denunciaria. Abdicaria dos títulos, das metáforas clichês e dos pontos finais. Ficaria apenas na forma de uma mudez repetida que acabaria por puir as perguntas não feitas. Aos observadores, um minuto de silêncio. Pensariam que honrava o dois de novembro. Respeitável.


2/11/09

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Blackout

Nove corpos que se entrelaçam no escuro. Não se sabe quem é a dona daquele pé ou quem perdeu aquela frase que percorre os rostos e provoca gargalhadas. No meio, uma bailarina conta como defendeu sua honra empunhando advérbios de negação e lágrimas. Há ainda a dona do sorriso luminoso que canta ao celular uma canção caipira lembrada aos gritos. E há aquelas que esperam. Uma próxima noite, o amor que ainda não veio, aquele que ainda não voltou, um filho. E brincamos de nos perguntar, de segredar nossos segredos já tão públicos, de confessar nossos delitos cometidos em arroubos de indignidade. Aos poucos e com panelas de brigadeiro, aprendemos a nos perdoar diariamente por tanto macular nosso sexo.

Vocês são lindas em seus rostos laranjas pintados por chama de vela. Não parem de sorrir, meninas. Há qualquer coisa bela demais na escuridão.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

A Colecionadora de Livros - ou sobre a crueldade do amor

E foi então que a colecionadora de livros conheceu o compositor de valsinhas. Encontraram-se em meio aos pares bêbados que dançavam seus medos e desejos em praça pública, na hora que antecedia o recomeço do mundo. Com as mãos entrelaçadas e sem cerimônias seguiram pelas ruas de pedras frouxas que guardavam o sono dos retirantes urbanos e os sussurros roucos dos corpos nus que povoavam os muros. Falaram de amenidades e tragédias, dos poetas notívagos e dos mortos no cais. Contaram sobre os dias de secura, sobre as luas carmins e mostraram os instantâneos que traziam nas carteiras. E ela ria. Não, não conhecia valsinhas nem a Europa, assim como ele também não havia lido Gabriel, uma falha de caráter imperdoável, não fosse o sorriso torto que ele ofereceu como justificativa. Com ares de importância, o rapaz cantarolou sua última composição, ainda descomposta em um ou outro trecho. Desajeitada, a colecionadora procurou acompanhar a letrinha sofrível e ele disse com um gracejo que ela desafinava lindo, lindo.

E depois de um tempo, perceberam espantados que não importava que as palavras deixassem de ser e deram lugar ao silêncio que virou beijo. E ali mesmo, nas ruas de pedras frouxas, amaram-se muito e de todas as maneiras que a imaginação e a anatomia lhes permitiram. Atormentados com tanto amor, os pássaros das gaiolas escaparam em revoada rumo ao céu, mas por não se distinguir mais este do mar, na negritude que se encontrava o mundo, jogaram-se, suicidas, nas águas, que passaram a cantar desde então. Ao fim, ela, colecionadora de valsinhas, e ele, compositor de livros, sorriram.

Porém, no segundo de lucidez que se segue ao êxtase e precede o desespero, ela soube que ao virarem a próxima esquina o rapaz soltaria sua mão. Antes, claro, ele lhe tocaria a ponta dos dedos com os lábios e diria qualquer coisinha sobre a cor de seus olhos. E seguiria, compondo e cantarolando novas valsinhas para tantas outras colecionadoras. Comovida com sua própria sorte, fechou os olhos e se deixou ficar ali, apenas ouvindo a voz que ao seu lado cantava: “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa. São bonitas as canções”.