Se não fossem os brigadeiros, ela teria saído pontualmente de casa e apanhado um ônibus menos cheio de pés. O pior é que os pés vinham acompanhados de sacolas e de tantas sacolas e pés, a ela e aos brigadeiros restou apenas um econômico espaço de ar e equilíbrio. Não fosse a chuva que descia branca e preguiçosa desde a madrugada, seriam apenas ela e os brigadeiros, mas a eles havia se juntado um guarda-chuva quebrado em uma das hastes, detalhe que dava ao trio um aspecto ainda mais deprimente. Novamente, se não fosse a chuva, não haveria poças e assim muito menos respingos em seu casaco recém-lavado. E o coque! A chuva estava destruindo o coque! Os 17 grampos estrategicamente colocados não poderiam competir com uma chuva assim, tão indecente.
Mas ela chegou. Aliás, ela, os brigadeiros e o guarda-chuva aleijado.
Estava aérea. Aquele tempo costumava deixá-la assim. Era como se toda aquela água lavasse nela qualquer senso do real e deixasse só algumas manchas de pensamentos bobos e fujões. E se não fosse isso, ela teria percebido que o que trouxera para o almoço não era macarrão. E assim teria sido poupada da desagradável experiência de se deparar com as berinjelas fatiadas, mortas e fedorentas.
Na volta, ela, os brigadeiros, o guarda-chuva, uma porção de berinjelas intocadas e um outro ônibus. A chuva talvez houvesse enjoado de molhar a cidade, que a essa altura se tivesse dedos já estaria toda enrugada.
À noite, chorou. Pensou na chuva, no ônibus, nas berinjelas e contou em segredo para si própria que seu único talento eram aqueles benditos brigadeiros.
2 comentários:
Ah, florzinha, você tem mais talentos do que benditos (benditos, sim!) brigadeiros.
Gosto muito de você. E sinto sua falta.
Um beijo.
=)
Ah, que teu único talento é o fazer.
De textos despreocupados a quitutes culinários, velho aqui prestar minha reverência à Rainha mais Midas que conheço.
Parabéns.
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