Não havia nada nem ninguém que se parecesse com ela. Tinha nos olhos o verde de quem traz consigo todos os mistérios e mágoas do mundo e se fechavam bem devagarzinho quando algo importante estava por ser dito; eram olhos ternos, mansos, ansiando pelo momento a vir a todo o tempo. Tinha uma beleza mais visitada pelo tempo do que pelas pessoas, mostrava as marcas de quem já tinha muito visto e vivido e o cansaço de quem percebe que muito já foi e que pouco, muito pouco teria volta. Ainda assim conservava a ternura e uma ânsia de carinho que a faziam criança em alguns momentos. Em meu colo, permitia-se a verdade desse fato: respirava um sossego tão poucas vezes concedido e mostrava-se indefesa, vulnerável...Momentos poucos em que se permitia a entrega, sem sua resistência tão costumeira. Uma brava resistência ao afeto, o medo da perda e da dor. Fez um dia a escolha por deixar de viver tudo aquilo que um dia pudesse lhe ser tirado. Talvez muito do que amou fora-lhe tomado e decidira então não começar nunca o que se mostrava frágil e solúvel.
Era linda quando dizia sentir-se só; solidão que havia sido por ela conquistada; solidão que lhe trazia a certeza de que só assim estaria imune aos perigos da perda. Mas ainda assim chamava-me quando se sentia esmagada pelo silêncio de seus dias; não gostava do som de seus passos ecoando nas paredes, nem do som de sua tristeza ecoando em mim. Pedia com a voz medrosa e tímida meu ombro.
Era uma criança assustada. O seu mundo tinha muito de tudo aquilo que deveria ser proibido por decreto Divino e debaixo de sua cama e de sua pele dormiam monstros sem nenhuma compaixão.
Era linda, linda demais e tinha nos olhos verdes todas as incertezas e medos que um universo de erros tinha deixado em seu caminho.
Um dia ela quis desistir. Desistir deste mundinho de futilidade e de habitantes tão desesperados por si mesmos. Mudaria-se para outro planeta, era isso. Mas acontece que contaram a ela sobre a verdade que há por baixo desse tapete encardido. E ela sorriu.
Só acho que ela nunca se encaixará neste mundinho, nem nunca acreditará nele. Ela não nasceu pra ele; e ele a rejeitou desde o princípio.
Quanto a mim, eu só queria poder todas as noites sentar-me à beira da cama, segurar-lhe a mão e contar-lhe histórias do tempo em que ainda era-se permitido amar. E ela poderia então dormir sem medo, mesmo que estivesse escuro. Tão escuro que nem o verde dos seus olhos encontraria os meus.
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