Por algum motivo desconhecido, em todos os anos de sua vida, aquele mês sempre significara mudanças. A pele corava e os olhos, até então desbotados, ganhavam as cores dos paus de canela e brilhavam maliciosamente diante dos vidros da cidade. Os seios enrijeciam e dos lábios brotava apenas o lá maior. Andava a passos ágeis, brincando de contar as pedras sob seus pés. Nestes, a mesma vida jorrava: havia esmalte.
Aquele era o mês da chegada dos novos amores. Sentia o ventre cheio.
Naquele dia, porém, desrespeitosamente contrariando a profecia de sua vida, sentiu apenas a falta. Sozinha em seu quarto, uma por uma as peças de roupa escorregaram até seus pés. No espelho, viu apenas o reflexo silencioso de seus contornos sutis. Havia olheiras, passagens mal desenhadas e sardas demais para serem lembradas. Deslizou a mão pelo pescoço e pensou naquela noite, nos sons roucos e nele. O que dissera aquele olhar?
Acariciou a porção de pele em torno de seu umbigo. Um único som oco.
Deitou-se e as voltas da coberta e de seu corpo entrelaçaram-se. Sabia da fugacidade de sua melancolia, afinal aquele mês ainda não acabara. Acalmava-lhe a certeza de que alguns dias a protegiam do retorno à insipidez. Mas apenas por hoje poderia se sentir só. A gosto.
2 comentários:
Simplesmente, lindo.
Cada releitura é um botão de rosa que se abre.
uau...
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uau.
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