Esse vai ter uma segunda chance...Ele pereceu na primeira pela falta de originalidade das expressões, mas elas continuam aí, caducas e repetitivas...
Ela olhou para as próprias mãos, observando os sulcos que se formavam. Lembrou daquele dia. Virou-se, olhou o movimento que cobria a plataforma – mulheres gordas carregando suas sacolas e bebês de colo, trabalhadores dos primeiros turnos, uma garota e sua meia preta rasgada pelos sacrifícios da noite. Atrás, alguém comentava em tom monocórdio os fatos trágicos de um jornal de bairro. Eram vozes, pernas e bocejos demais. O ar gelado que percorria os trilhos penetrava suas narinas, eriçava os pêlos em sua nuca. Apertou o casaco contra o corpo e sentiu falta do café ralo de D. Alice. O relógio encardido, pendurado sobre a plataforma, marcava qualquer hora errada. Pôs a mão no bolso, retirando o pedaço de papel velho riscado às pressas. Talvez aquele endereço não existisse mais, talvez ele não existisse mais. Dobrou.
Ao longe, um apito gerou movimentos ansiosos naquela gente medíocre. Inclinou-se lentamente, erguendo a maleta surrada cheia de objetos de outro tempo. O vestido vermelho daquele dia. Os vagões pichados logo se acomodaram, soltando um suspiro cansado. Caminhou na mesma direção que os demais, embarcou.
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