sábado, 10 de outubro de 2009

Querido menino


Ontem você quis saber como eu estava. Logo para mim, querido menino, que não sei mentir. E você então me perguntou como eu transformava dor em palavras. Palavras certas. E naquela hora eu quis te dizer que as palavras que escrevo são certas só para mim. Não são certas para Teresa, nunca abarcariam sua tristeza infinita com gosto de mar, nem teriam encaixe perfeito na cova aberta que ficou em Heloísa quando sua menina decidiu ser pássaro sem asas. Minhas palavras têm seios e são negligentes com os meninos crescidos. Para eles dediquei nada mais que entrelinhas. Eu escrevo apenas para mim. Palavras, antes que certas, egoístas. Palavras que não transformam a dor, querido menino, apenas me salvam dela por alguns segundos.

E eu também quis te fazer muitas perguntas. Quis saber dos finais de semana, se você tem se alimentado melhor e se o Lorenzo tem fingido ser Johnny Cash quando o sono não vem e o medo do escuro brinca de fazer cócegas em você. E, mais do que tudo, queria saber se você é feliz agora.

Mas seus passos são mais largos que os meus, querido menino. E te levaram para um lugar onde minhas perguntas, cartas e orações são incapazes chegar.

Um comentário:

Unknown disse...

tati, suas palavras tbm são certas para mim querida.