Ela falou em perda e tudo que pude oferecer foram duas lágrimas sentidas e meus olhos vermelhos. Desculpe, eu não queria chorar. É que às vezes a minha dor, a dor do outro e a dor do mundo se misturam, se lambem e acasalam. Dão cria. E essa cria corre louca, roendo móveis, chinelos velhos e as esperanças da gente.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Baixou os olhos e enfileirou em sua mente uma seqüência numérica qualquer que abafasse o ruído que fazia ali dentro. A essa altura sua respiração agitara-se e o peito em seu ir e vir entregava aquilo que a face trabalhava em esconder. As mãos geladas fecharam-se tensas, cravando nas palmas as unhas descascadas. Foi então que, dali onde vigiava o mundo, viu passar o par de tênis pretos. Teve a impressão de que o pé esquerdo em algum momento se atrasara em seu trajeto para o chão, mas seja pela arrogância do direito, seja pelo engano de seus olhos, ele logo se recompôs e retornou às passadas largas e decididas que levaram seu dono para longe dela. Pode enfim afrouxar as mãos. Uma ferida formada na palma ficaria como lembrança por alguns dias. O peito agitado tornou-se então imóvel e os números passaram a furar a fila, enfurecidos, acusando-se e produzindo um barulho digno de denúncia se escapasse de seu crânio. Demorou alguns segundos para que tudo se aquietasse e ela fosse inundada pela dor que já era inquilina inadimplente de algum desvão em seu corpo.
Em seu propósito de ignorar diariamente a passagem do dono dos pés, acostumara-se aos poucos com aquela seqüência de reações, mas a depressão que lhe tomava ao fim ainda causava surpresa e um bocado de decepção. Egocentricamente, achara que se não olhasse tornaria-se invisível ao dono dos pés, o que realmente aconteceu após algumas semanas de ensaio, mas para ela os pés continuavam ali, pesados, arrastando consigo memórias e um pouco de lama seca. A marca de seu próprio calçado no emborrachado do tênis esquerdo já não estava mais ali, agora um novo pé pisotearia de leve (o direito) durante uma dança ou beijo qualquer.
Era fim de tarde e uma pena caída deu seu vôo rasteiro anunciando sorte.
Esse vai ter uma segunda chance...Ele pereceu na primeira pela falta de originalidade das expressões, mas elas continuam aí, caducas e repetitivas...
Ela olhou para as próprias mãos, observando os sulcos que se formavam. Lembrou daquele dia. Virou-se, olhou o movimento que cobria a plataforma – mulheres gordas carregando suas sacolas e bebês de colo, trabalhadores dos primeiros turnos, uma garota e sua meia preta rasgada pelos sacrifícios da noite. Atrás, alguém comentava em tom monocórdio os fatos trágicos de um jornal de bairro. Eram vozes, pernas e bocejos demais. O ar gelado que percorria os trilhos penetrava suas narinas, eriçava os pêlos em sua nuca. Apertou o casaco contra o corpo e sentiu falta do café ralo de D. Alice. O relógio encardido, pendurado sobre a plataforma, marcava qualquer hora errada. Pôs a mão no bolso, retirando o pedaço de papel velho riscado às pressas. Talvez aquele endereço não existisse mais, talvez ele não existisse mais. Dobrou.
Ao longe, um apito gerou movimentos ansiosos naquela gente medíocre. Inclinou-se lentamente, erguendo a maleta surrada cheia de objetos de outro tempo. O vestido vermelho daquele dia. Os vagões pichados logo se acomodaram, soltando um suspiro cansado. Caminhou na mesma direção que os demais, embarcou.