sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Se não fossem os brigadeiros, ela teria saído pontualmente de casa e apanhado um ônibus menos cheio de pés. O pior é que os pés vinham acompanhados de sacolas e de tantas sacolas e pés, a ela e aos brigadeiros restou apenas um econômico espaço de ar e equilíbrio. Não fosse a chuva que descia branca e preguiçosa desde a madrugada, seriam apenas ela e os brigadeiros, mas a eles havia se juntado um guarda-chuva quebrado em uma das hastes, detalhe que dava ao trio um aspecto ainda mais deprimente. Novamente, se não fosse a chuva, não haveria poças e assim muito menos respingos em seu casaco recém-lavado. E o coque! A chuva estava destruindo o coque! Os 17 grampos estrategicamente colocados não poderiam competir com uma chuva assim, tão indecente.

Mas ela chegou. Aliás, ela, os brigadeiros e o guarda-chuva aleijado.

Estava aérea. Aquele tempo costumava deixá-la assim. Era como se toda aquela água lavasse nela qualquer senso do real e deixasse só algumas manchas de pensamentos bobos e fujões. E se não fosse isso, ela teria percebido que o que trouxera para o almoço não era macarrão. E assim teria sido poupada da desagradável experiência de se deparar com as berinjelas fatiadas, mortas e fedorentas.

Na volta, ela, os brigadeiros, o guarda-chuva, uma porção de berinjelas intocadas e um outro ônibus. A chuva talvez houvesse enjoado de molhar a cidade, que a essa altura se tivesse dedos já estaria toda enrugada.

À noite, chorou. Pensou na chuva, no ônibus, nas berinjelas e contou em segredo para si própria que seu único talento eram aqueles benditos brigadeiros.

Calma, meu menino,
Vê que o mundo gira?
Mas não olhe demais que lhe causa vertigem
Sinta só a brisa que traz esse movimento
E a poeira que ele levanta
E escuta o baixinho zumbido desse balanço
Ele continua girando, meu menino
Sempre irá girar
Mas não olhe demais não
Sinta só a brisa
(é aquele pouco que vale a pena)

Olhos Verdes

Não havia nada nem ninguém que se parecesse com ela. Tinha nos olhos o verde de quem traz consigo todos os mistérios e mágoas do mundo e se fechavam bem devagarzinho quando algo importante estava por ser dito; eram olhos ternos, mansos, ansiando pelo momento a vir a todo o tempo. Tinha uma beleza mais visitada pelo tempo do que pelas pessoas, mostrava as marcas de quem já tinha muito visto e vivido e o cansaço de quem percebe que muito já foi e que pouco, muito pouco teria volta. Ainda assim conservava a ternura e uma ânsia de carinho que a faziam criança em alguns momentos. Em meu colo, permitia-se a verdade desse fato: respirava um sossego tão poucas vezes concedido e mostrava-se indefesa, vulnerável...Momentos poucos em que se permitia a entrega, sem sua resistência tão costumeira. Uma brava resistência ao afeto, o medo da perda e da dor. Fez um dia a escolha por deixar de viver tudo aquilo que um dia pudesse lhe ser tirado. Talvez muito do que amou fora-lhe tomado e decidira então não começar nunca o que se mostrava frágil e solúvel.

Era linda quando dizia sentir-se só; solidão que havia sido por ela conquistada; solidão que lhe trazia a certeza de que só assim estaria imune aos perigos da perda. Mas ainda assim chamava-me quando se sentia esmagada pelo silêncio de seus dias; não gostava do som de seus passos ecoando nas paredes, nem do som de sua tristeza ecoando em mim. Pedia com a voz medrosa e tímida meu ombro.
Era uma criança assustada. O seu mundo tinha muito de tudo aquilo que deveria ser proibido por decreto Divino e debaixo de sua cama e de sua pele dormiam monstros sem nenhuma compaixão.
Era linda, linda demais e tinha nos olhos verdes todas as incertezas e medos que um universo de erros tinha deixado em seu caminho.

Um dia ela quis desistir. Desistir deste mundinho de futilidade e de habitantes tão desesperados por si mesmos. Mudaria-se para outro planeta, era isso. Mas acontece que contaram a ela sobre a verdade que há por baixo desse tapete encardido. E ela sorriu.

Só acho que ela nunca se encaixará neste mundinho, nem nunca acreditará nele. Ela não nasceu pra ele; e ele a rejeitou desde o princípio.

Quanto a mim, eu só queria poder todas as noites sentar-me à beira da cama, segurar-lhe a mão e contar-lhe histórias do tempo em que ainda era-se permitido amar. E ela poderia então dormir sem medo, mesmo que estivesse escuro. Tão escuro que nem o verde dos seus olhos encontraria os meus.