sábado, 11 de setembro de 2010

(Teresinha ² + 2)


O primeiro lhe chegou em 1993. Foi surpreendido por ela com um pedido de namoro em troca do empréstimo de um lápis. Assustado, disse não.


O segundo confessou que lhe gostava em meio a um ensaio de quadrilha, ao que recebeu um sorriso com alguma provável janelinha e um “eu também”. Dias depois soube que ele se mudaria para algum lugar do qual nunca ouvira falar e que parecia muito distante do perímetro alcançado por seus oito anos. Não se chora por isso nessa idade. Brinca-se de Lego e se desenha uma princesa de longas tranças. Nos meses seguintes, não havia ele. Por muito tempo esperou revê-lo, pois, sabe-se, não são raros estes encontros sem aviso. Hoje já não se lembra de um de seus sobrenomes e se pergunta como ele está.

Anos depois, o terceiro. Este recebeu um bocado de pontapés na canela antes que ela encontrasse maneira melhor de demonstrar amor. Foi quando lhe escreveu uma carta, colocada às escondidas em sua mochila. No dia seguinte, em troca, ela ganhou um (primeiro) beijo, a permanente memória olfativa para tangerinas e um pedido de namoro. Tinha nome de anjo e aparelhos nos dentes.

O quarto arrancava suspiros concomitantes ou subseqüentes de toda mocinha que pisasse em seu caminho. Não se prestava, no entanto, a dar atenção a nenhuma delas, ainda preferindo videogames e futebol.

Logo em seguida, o quinto. Gostava de rodeios, mulheres à venda após a aula e qualquer substância alucinógena que a oportunidade apresentasse. Já ela, gostava dele. O namoro entre os dois foi breve, a história nem tanto. Dividido entre duas cidades e entre duas saias as quais enganar significou um certo trabalho. Anos mais tarde, ela teve noticias de algumas prisões. Motivo desconhecido.

Gostou do sexto assim que o viu. Cabelo alourado, sorriso largo e uma namorada com nome incomum. O único judeu. Negligente com os estudos, dava a ela a alegria de ensinar-lhe física e química às vésperas de prova. Nos demais dias, era facilmente ignorada. Nunca deixou que ele soubesse.

Amou o sétimo. Foi amada por ele. Paixão exagerada, desejos demasiados, tudo era muito. Porém, como alguns acontecimentos sem razão clara, um dia o amor de ambos se transformou em telefonemas rotineiros e ofensas mútuas. Silêncio e solidão deram lugar ao oitavo.

Este era doce. Discretamente encostavam suas mãos sob a mesa. À noite, ela lia os versos que ele compunha com facilidade despretensiosa. Pactuavam um sentimento que sabiam irrealizável. Um dia ela quase lhe roubou um beijo. Nos milímetros que separaram as bocas, ficou a certeza de que para serem vividas, algumas histórias não precisam ser concretizadas.

O nono era dado a discussões filosóficas e críticas musicais. Ensinou-lhe teorias políticas e aprendeu com ela um pouco do amor. Fazia-lhe rir, tinha péssimo gosto para filmes e era um ótimo parceiro de diálogos intermináveis. Até que se esvaiu. Ela ainda tenta descobrir o que ficou.

Quanto ao décimo, não se sabe o que sentiu. Porém, se paixão pode ser medida por lágrimas e consumo de álcool, sim, de certa forma o quis. Foi seu amor noturno. Amor de corpo. Se havia algum coração no rapaz, este se encontrava decerto do outro lado do Atlântico. Depois dele, restaram as rodas de samba.

Chegamos ao décimo primeiro. Pergunta-se para onde olhava que não o viu. Está agora a ponto de transbordar, de dizer-lhe óbvio. No súbito encantamento de se notar ao lado dele, esquece do que se fala, perdida nos movimentos de sua boca. Quer tocá-lo, mas sua mão retrocede a cada tentativa. Ele a observa do alto. É lindo e não a quer.

Inveja daquela que encerrou sua história após o terceiro cavalheiro.









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