Já é noite, meu bem. Eu preciso ir. As horas correram e nos trouxeram até aqui. Há silêncio e blefes jogados no escuro. Escuta-os como verdade. Mas eu nunca te disse a verdade. Nem sei das suas feições à luz do dia. E talvez você não exista sob o sol. Sei apenas dos seus contornos marcados por suor e sombra, lindos.
Dorme como se o mundo não fosse uma sobreposição de enganos, medo e dor. Como se as moças esquálidas dos cortiços da cidade não sonhassem sonhos mortos, sentadas à beira de portas sem batentes. Dorme, porque no seu mundo não há nenhum perigo. E eu olho pra você – agora que é noite – sabendo que o meu único perigo estava bem aqui, transfigurado em menino.
As noites trouxeram você até mim em pequenas estrofes datadas de um tempo em que o amor doía menos. Mas seu mundo é composto em um ritmo obviamente distinto do meu. Não me chame pra dançar. Apenas entenda que se fui oca e sem palavras é porque havia verdades demais sob a pele que te tocava. E se me comovo facilmente é porque já é noite, meu bem.
Depois de muitos ensaios e frases inacabadas decidiu que naquela noite nada escreveria. Mesmo que as palavras continuassem a vir em ânsias, atrevidas e irresponsáveis, e as pontas de seus dedos se movessem à procura de teclas imaginárias. Não se denunciaria. Abdicaria dos títulos, das metáforas clichês e dos pontos finais. Ficaria apenas na forma de uma mudez repetida que acabaria por puir as perguntas não feitas. Aos observadores, um minuto de silêncio. Pensariam que honrava o dois de novembro. Respeitável.
Nove corpos que se entrelaçam no escuro. Não se sabe quem é a dona daquele pé ou quem perdeu aquela frase que percorre os rostos e provoca gargalhadas. No meio, uma bailarina conta como defendeu sua honra empunhando advérbios de negação e lágrimas. Há ainda a dona do sorriso luminoso que canta ao celular uma canção caipira lembrada aos gritos. E há aquelas que esperam. Uma próxima noite, o amor que ainda não veio, aquele que ainda não voltou, um filho. E brincamos de nos perguntar, de segredar nossos segredos já tão públicos, de confessar nossos delitos cometidos em arroubos de indignidade. Aos poucos e com panelas de brigadeiro, aprendemos a nos perdoar diariamente por tanto macular nosso sexo.
Vocês são lindas em seus rostos laranjas pintados por chama de vela. Não parem de sorrir, meninas. Há qualquer coisa bela demais na escuridão.
E foi então que a colecionadora de livros conheceu o compositor de valsinhas. Encontraram-se em meio aos pares bêbados que dançavam seus medos e desejos em praça pública, na hora que antecedia o recomeço do mundo. Com as mãos entrelaçadas e sem cerimônias seguiram pelas ruas de pedras frouxas que guardavam o sono dos retirantes urbanos e os sussurros roucos dos corpos nus que povoavam os muros. Falaram de amenidades e tragédias, dos poetas notívagos e dos mortos no cais. Contaram sobre os dias de secura, sobre as luas carmins e mostraram os instantâneos que traziam nas carteiras.E ela ria. Não, não conhecia valsinhas nem a Europa, assim como ele também não havia lido Gabriel, uma falha de caráter imperdoável, não fosse o sorriso torto que ele ofereceu como justificativa. Com ares de importância, o rapaz cantarolou sua última composição, ainda descomposta em um ou outro trecho. Desajeitada, a colecionadora procurou acompanhar a letrinha sofrível e ele disse com um gracejo que ela desafinava lindo, lindo.
E depois de um tempo, perceberam espantados que não importava que as palavras deixassem de ser e deram lugar ao silêncio que virou beijo. E ali mesmo, nas ruas de pedras frouxas, amaram-se muito e de todas as maneiras que a imaginação e a anatomia lhes permitiram. Atormentados com tanto amor, os pássaros das gaiolas escaparam em revoada rumo ao céu, mas por não se distinguir mais este do mar, na negritude que se encontrava o mundo, jogaram-se, suicidas, nas águas, que passaram a cantar desde então. Ao fim, ela, colecionadora de valsinhas, e ele, compositor de livros, sorriram.
Porém, no segundo de lucidez que se segue ao êxtase e precede o desespero, ela soube que ao virarem a próxima esquina o rapaz soltaria sua mão. Antes, claro, ele lhe tocaria a ponta dos dedos com os lábios e diria qualquer coisinha sobre a cor de seus olhos. E seguiria, compondo e cantarolando novas valsinhas para tantas outras colecionadoras. Comovida com sua própria sorte, fechou os olhos e se deixou ficar ali, apenas ouvindo a voz que ao seu lado cantava: “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa. São bonitas as canções”.
Ontem você quis saber como eu estava. Logo para mim, querido menino, que não sei mentir. E você então me perguntou como eu transformava dor em palavras. Palavras certas. E naquela hora eu quis te dizer que as palavras que escrevo são certas só para mim. Não são certas para Teresa, nunca abarcariam sua tristeza infinita com gosto de mar, nem teriam encaixe perfeito na cova aberta que ficou em Heloísa quando sua menina decidiu ser pássaro sem asas. Minhas palavras têm seios e são negligentes com os meninos crescidos. Para eles dediquei nada mais que entrelinhas. Eu escrevo apenas para mim. Palavras, antes que certas, egoístas. Palavras que não transformam a dor, querido menino, apenas me salvam dela por alguns segundos.
E eu também quis te fazer muitas perguntas. Quis saber dos finais de semana, se você tem se alimentado melhor e se o Lorenzo tem fingido ser Johnny Cash quando o sono não vem e o medo do escuro brinca de fazer cócegas em você. E, mais do que tudo, queria saber se você é feliz agora.
Mas seus passos são mais largos que os meus, querido menino. E te levaram para um lugar onde minhas perguntas, cartas e orações são incapazes chegar.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Ela falou em perda e tudo que pude oferecer foram duas lágrimas sentidas e meus olhos vermelhos. Desculpe, eu não queria chorar. É que às vezes a minha dor, a dor do outro e a dor do mundo se misturam, se lambem e acasalam. Dão cria. E essa cria corre louca, roendo móveis, chinelos velhos e as esperanças da gente.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Baixou os olhos e enfileirou em sua mente uma seqüência numérica qualquer que abafasse o ruído que fazia ali dentro. A essa altura sua respiração agitara-se e o peito em seu ir e vir entregava aquilo que a face trabalhava em esconder. As mãos geladas fecharam-se tensas, cravando nas palmas as unhas descascadas. Foi então que, dali onde vigiava o mundo, viu passar o par de tênis pretos. Teve a impressão de que o pé esquerdo em algum momento se atrasara em seu trajeto para o chão, mas seja pela arrogância do direito, seja pelo engano de seus olhos, ele logo se recompôs e retornou às passadas largas e decididas que levaram seu dono para longe dela. Pode enfim afrouxar as mãos. Uma ferida formada na palma ficaria como lembrança por alguns dias. O peito agitado tornou-se então imóvel e os números passaram a furar a fila, enfurecidos, acusando-se e produzindo um barulho digno de denúncia se escapasse de seu crânio. Demorou alguns segundos para que tudo se aquietasse e ela fosse inundada pela dor que já era inquilina inadimplente de algum desvão em seu corpo.
Em seu propósito de ignorar diariamente a passagem do dono dos pés, acostumara-se aos poucos com aquela seqüência de reações, mas a depressão que lhe tomava ao fim ainda causava surpresa e um bocado de decepção. Egocentricamente, achara que se não olhasse tornaria-se invisível ao dono dos pés, o que realmente aconteceu após algumas semanas de ensaio, mas para ela os pés continuavam ali, pesados, arrastando consigo memórias e um pouco de lama seca. A marca de seu próprio calçado no emborrachado do tênis esquerdo já não estava mais ali, agora um novo pé pisotearia de leve (o direito) durante uma dança ou beijo qualquer.
Era fim de tarde e uma pena caída deu seu vôo rasteiro anunciando sorte.
Esse vai ter uma segunda chance...Ele pereceu na primeira pela falta de originalidade das expressões, mas elas continuam aí, caducas e repetitivas...
Ela olhou para as próprias mãos, observando os sulcos que se formavam. Lembrou daquele dia. Virou-se, olhou o movimento que cobria a plataforma – mulheres gordas carregando suas sacolas e bebês de colo, trabalhadores dos primeiros turnos, uma garota e sua meia preta rasgada pelos sacrifícios da noite. Atrás, alguém comentava em tom monocórdio os fatos trágicos de um jornal de bairro. Eram vozes, pernas e bocejos demais. O ar gelado que percorria os trilhos penetrava suas narinas, eriçava os pêlos em sua nuca. Apertou o casaco contra o corpo e sentiu falta do café ralo de D. Alice. O relógio encardido, pendurado sobre a plataforma, marcava qualquer hora errada. Pôs a mão no bolso, retirando o pedaço de papel velho riscado às pressas. Talvez aquele endereço não existisse mais, talvez ele não existisse mais. Dobrou.
Ao longe, um apito gerou movimentos ansiosos naquela gente medíocre. Inclinou-se lentamente, erguendo a maleta surrada cheia de objetos de outro tempo. O vestido vermelho daquele dia. Os vagões pichados logo se acomodaram, soltando um suspiro cansado. Caminhou na mesma direção que os demais, embarcou.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Por algum motivo desconhecido, em todos os anos de sua vida, aquele mês sempre significara mudanças. A pele corava e os olhos, até então desbotados, ganhavam as cores dos paus de canela e brilhavam maliciosamente diante dos vidros da cidade. Os seios enrijeciam e dos lábios brotava apenas o lá maior. Andava a passos ágeis, brincando de contar as pedras sob seus pés. Nestes, a mesma vida jorrava: havia esmalte.
Aquele era o mês da chegada dos novos amores. Sentia o ventre cheio.
Naquele dia, porém, desrespeitosamente contrariando a profecia de sua vida, sentiu apenas a falta. Sozinha em seu quarto, uma por uma as peças de roupa escorregaram até seus pés. No espelho, viu apenas o reflexo silencioso de seus contornos sutis. Havia olheiras, passagens mal desenhadas e sardas demais para serem lembradas. Deslizou a mão pelo pescoço e pensou naquela noite, nos sons roucos e nele. O que dissera aquele olhar?
Acariciou a porção de pele em torno de seu umbigo. Um único som oco.
Deitou-se e as voltas da coberta e de seu corpo entrelaçaram-se. Sabia da fugacidade de sua melancolia, afinal aquele mês ainda não acabara. Acalmava-lhe a certeza de que alguns dias a protegiam do retorno à insipidez. Mas apenas por hoje poderia se sentir só. A gosto.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Se não fossem os brigadeiros, ela teria saído pontualmente de casa e apanhado um ônibus menos cheio de pés. O pior é que os pés vinham acompanhados de sacolas e de tantas sacolas e pés, a ela e aos brigadeiros restou apenas um econômico espaço de ar e equilíbrio. Não fosse a chuva que descia branca e preguiçosa desde a madrugada, seriam apenas ela e os brigadeiros, mas a eles havia se juntado um guarda-chuva quebrado em uma das hastes, detalhe que dava ao trio um aspecto ainda mais deprimente. Novamente, se não fosse a chuva, não haveria poças e assim muito menos respingos em seu casaco recém-lavado. E o coque! A chuva estava destruindo o coque! Os 17 grampos estrategicamente colocados não poderiam competir com uma chuva assim, tão indecente.
Mas ela chegou. Aliás, ela, os brigadeiros e o guarda-chuva aleijado.
Estava aérea. Aquele tempo costumava deixá-la assim. Era como se toda aquela água lavasse nela qualquer senso do real e deixasse só algumas manchas de pensamentos bobos e fujões. E se não fosse isso, ela teria percebido que o que trouxera para o almoço não era macarrão. E assim teria sido poupada da desagradável experiência de se deparar com as berinjelas fatiadas, mortas e fedorentas.
Na volta, ela, os brigadeiros, o guarda-chuva, uma porção de berinjelas intocadas e um outro ônibus. A chuva talvez houvesse enjoado de molhar a cidade, que a essa altura se tivesse dedos já estaria toda enrugada.
À noite, chorou. Pensou na chuva, no ônibus, nas berinjelas e contou em segredo para si própria que seu único talento eram aqueles benditos brigadeiros.
Calma, meu menino, Vê que o mundo gira? Mas não olhe demais que lhe causa vertigem Sinta só a brisa que traz esse movimento E a poeira que ele levanta E escuta o baixinho zumbido desse balanço Ele continua girando, meu menino Sempre irá girar Mas não olhe demais não Sinta só a brisa (é aquele pouco que vale a pena)
Não havia nada nem ninguém que se parecesse com ela. Tinha nos olhos o verde de quem traz consigo todos os mistérios e mágoas do mundo e se fechavam bem devagarzinho quando algo importante estava por ser dito; eram olhos ternos, mansos, ansiando pelo momento a vir a todo o tempo. Tinha uma beleza mais visitada pelo tempo do que pelas pessoas, mostrava as marcas de quem já tinha muito visto e vivido e o cansaço de quem percebe que muito já foi e que pouco, muito pouco teria volta. Ainda assim conservava a ternura e uma ânsia de carinho que a faziam criança em alguns momentos. Em meu colo, permitia-se a verdade desse fato: respirava um sossego tão poucas vezes concedido e mostrava-se indefesa, vulnerável...Momentos poucos em que se permitia a entrega, sem sua resistência tão costumeira. Uma brava resistência ao afeto, o medo da perda e da dor. Fez um dia a escolha por deixar de viver tudo aquilo que um dia pudesse lhe ser tirado. Talvez muito do que amou fora-lhe tomado e decidira então não começar nunca o que se mostrava frágil e solúvel.
Era linda quando dizia sentir-se só; solidão que havia sido por ela conquistada; solidão que lhe trazia a certeza de que só assim estaria imune aos perigos da perda. Mas ainda assim chamava-me quando se sentia esmagada pelo silêncio de seus dias; não gostava do som de seus passos ecoando nas paredes, nem do som de sua tristeza ecoando em mim. Pedia com a voz medrosa e tímida meu ombro.
Era uma criança assustada. O seu mundo tinha muito de tudo aquilo que deveria ser proibido por decreto Divino e debaixo de sua cama e de sua pele dormiam monstros sem nenhuma compaixão.
Era linda, linda demais e tinha nos olhos verdes todas as incertezas e medos que um universo de erros tinha deixado em seu caminho.
Um dia ela quis desistir. Desistir deste mundinho de futilidade e de habitantes tão desesperados por si mesmos. Mudaria-se para outro planeta, era isso. Mas acontece que contaram a ela sobre a verdade que há por baixo desse tapete encardido. E ela sorriu.
Só acho que ela nunca se encaixará neste mundinho, nem nunca acreditará nele. Ela não nasceu pra ele; e ele a rejeitou desde o princípio.
Quanto a mim, eu só queria poder todas as noites sentar-me à beira da cama, segurar-lhe a mão e contar-lhe histórias do tempo em que ainda era-se permitido amar. E ela poderia então dormir sem medo, mesmo que estivesse escuro. Tão escuro que nem o verde dos seus olhos encontraria os meus.