domingo, 29 de novembro de 2009

Já é noite, meu bem

Já é noite, meu bem. Eu preciso ir. As horas correram e nos trouxeram até aqui. Há silêncio e blefes jogados no escuro. Escuta-os como verdade. Mas eu nunca te disse a verdade. Nem sei das suas feições à luz do dia. E talvez você não exista sob o sol. Sei apenas dos seus contornos marcados por suor e sombra, lindos.

Dorme como se o mundo não fosse uma sobreposição de enganos, medo e dor. Como se as moças esquálidas dos cortiços da cidade não sonhassem sonhos mortos, sentadas à beira de portas sem batentes. Dorme, porque no seu mundo não há nenhum perigo. E eu olho pra você – agora que é noite – sabendo que o meu único perigo estava bem aqui, transfigurado em menino.

As noites trouxeram você até mim em pequenas estrofes datadas de um tempo em que o amor doía menos. Mas seu mundo é composto em um ritmo obviamente distinto do meu. Não me chame pra dançar. Apenas entenda que se fui oca e sem palavras é porque havia verdades demais sob a pele que te tocava. E se me comovo facilmente é porque já é noite, meu bem.

sábado, 14 de novembro de 2009

[...]

Depois de muitos ensaios e frases inacabadas decidiu que naquela noite nada escreveria. Mesmo que as palavras continuassem a vir em ânsias, atrevidas e irresponsáveis, e as pontas de seus dedos se movessem à procura de teclas imaginárias. Não se denunciaria. Abdicaria dos títulos, das metáforas clichês e dos pontos finais. Ficaria apenas na forma de uma mudez repetida que acabaria por puir as perguntas não feitas. Aos observadores, um minuto de silêncio. Pensariam que honrava o dois de novembro. Respeitável.


2/11/09

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Blackout

Nove corpos que se entrelaçam no escuro. Não se sabe quem é a dona daquele pé ou quem perdeu aquela frase que percorre os rostos e provoca gargalhadas. No meio, uma bailarina conta como defendeu sua honra empunhando advérbios de negação e lágrimas. Há ainda a dona do sorriso luminoso que canta ao celular uma canção caipira lembrada aos gritos. E há aquelas que esperam. Uma próxima noite, o amor que ainda não veio, aquele que ainda não voltou, um filho. E brincamos de nos perguntar, de segredar nossos segredos já tão públicos, de confessar nossos delitos cometidos em arroubos de indignidade. Aos poucos e com panelas de brigadeiro, aprendemos a nos perdoar diariamente por tanto macular nosso sexo.

Vocês são lindas em seus rostos laranjas pintados por chama de vela. Não parem de sorrir, meninas. Há qualquer coisa bela demais na escuridão.