Já é noite, meu bem. Eu preciso ir. As horas correram e nos trouxeram até aqui. Há silêncio e blefes jogados no escuro. Escuta-os como verdade. Mas eu nunca te disse a verdade. Nem sei das suas feições à luz do dia. E talvez você não exista sob o sol. Sei apenas dos seus contornos marcados por suor e sombra, lindos.
Dorme como se o mundo não fosse uma sobreposição de enganos, medo e dor. Como se as moças esquálidas dos cortiços da cidade não sonhassem sonhos mortos, sentadas à beira de portas sem batentes. Dorme, porque no seu mundo não há nenhum perigo. E eu olho pra você – agora que é noite – sabendo que o meu único perigo estava bem aqui, transfigurado em menino.
As noites trouxeram você até mim em pequenas estrofes datadas de um tempo em que o amor doía menos. Mas seu mundo é composto em um ritmo obviamente distinto do meu. Não me chame pra dançar. Apenas entenda que se fui oca e sem palavras é porque havia verdades demais sob a pele que te tocava. E se me comovo facilmente é porque já é noite, meu bem.